Resiliência Agroecológica: Erva-de-Ovelha, uma planta do Sertão Nordestino que faz a vaca e a cabra dar leite numa terra “degradada” Aprendizagem de uma expedição cientifica # 2

September 4, 2017

Por Aldrin M. Perez-Marin, João Macedo Moreira e Simone Benevides Pesquisadores do Grupo de Desertificação e Agroecologia em Terras Secas Popularizando Ciência, Tecnologia e Inovação no Semiárido brasileiro e-mail: aldrin.perez@insa.gov.br, joaodacaatinga@gmail.com e simone.benevides@insa.gov.br

A agroecologia no Semiárido brasileiro se funda às sombras do Latifúndio, no seu interior ou nos espaços abandonados por eles. Onde Vaqueiros, ex-escravos, índios, foram ocupando pouco a pouco as terras em condições de posseiros, arrendatários, moradores ou até mesmo apropriando-se das terras, devido ao absenteísmo dos fazendeiros ou latifundiários.  Assim a agroecologia começou a se desenvolver na região caracterizada pela associação de vários subsistemas de manejo agroecológico.

Estes protagonistas de ocupação do espaço Semiárido, desde então transformam e ajudam a proteger a paisagem do Semiárido, assegurando a sustentabilidade mutua. Eles protegem as plantas, animais e fontes de água, que são uteis, ajudando a manter a biodiversidade.

Neste artigo, exploramos a experiência de vida, da inter-relação cultural com a manutenção da biodiversidade ou “Diversidade Biocultural”, de um Ex-Vaqueiro o Sr. Manuel Almeida Lopes, popularmente conhecido por Sr. Tiné, que hoje faz agroecologia acontecer, do dizer ao fazer, do fazer ao saber, da reflexão à ação, da ação à reflexão.    

O Ex-Vaqueiro e Sua relação com a planta Erva-de-Ovelha ou Erva-de-Leite

A comunidade de Cacimba Salgada, Irauçuba, Ceará, está localizada numa área considerada um Núcleo de Desertificação – Núcleo de Irauçuba -. Chegar à comunidade de Cacimba Salgada, e deparar com uma realidade diferente é surpreendente, como o nascimento da vida com sinais de esperança numa terra degradada (ou num mundo complexo e complicado).

No caminho, uma planta e um homem do Sertão se destacam na paisagem: a Erva-de-Ovelha ou Erva-de-Leite e o Senhor Tiné. Ambos formando uma simbiose de amor, para a vida florescer e a convivência  do Ser, acontecer, harmoniosamente no equilíbrio do bem viver. O Padre Antônio Viera já dizia: “os antigos cultuavam ás plantas, acreditando que elas tinham almas”.

Esta ideia continua viva no espirito do Sertão Nordestino, oferecendo-nos boas lições de experiência de vida, no processo desafiador de adaptação e resiliência as mudanças climáticas. É uma dessas experiências de vida, que resgatamos neste artigo, fruto de uma Expedição Cientifica realizada pelo grupo de Desertificação e Agroecologia do Instituto Nacional do Semiárido, em agosto de 2015, na qual relatamos as estratégias de Manejo Agroecológico para criar “Vaca de Leite” com a Erva-de-Leite, uma planta que faz produzir rios de leite de vacas e cabras numa terra em teses “degradada”.

Estratégia agroecológica número um ou Passo ZERO: A formação dos Bancos de Sementes no Solo.

Sr. Tiné conta que nas áreas com fartos bancos de sementes, esbeltas e exuberantes plantas tenras de Ervas-de-Ovelha ou Erva-de-Leite brotam do chão.  Com o passar do tempo, quando vai ficando mais seco as plantas de Erva-de-Ovelha, espalham uma chuva de sementes, que logo ficam escondidas embaixo do chão, formando uma poupança para novos tempos de chuva, de esperança e de vida. Deixar a Erva-de-Ovelha completar este ciclo, é essencial, destaca o agricultor, para sempre ter alimento e a vaca produzir leite na dança da variação climática, disse ele.

 

Estratégia agroecológica número dois: As Vacas pastejam somente após a Erva-de-Leite ou Erva-de-Ovelha espalhar a chuva de Semente no Solo.    

O Sr. Tiné, destaca que após as plantas de Erva-de-Ovelha, irrigar o Solo com suas sementes, os animais se banqueteiam fartamente da biomassa produzida na invernada.  Após isso, a terra fica desnuda, até parecendo que tudo morreu. Mas, quando chega novamente às chuvas, explode um tapete verde das sementes, que estavam adormecidas embaixo do chão, cobrindo toda terra desnuda.  Choveu, imediatamente, as sementes de Erva-de-Leite ou de Ovelha, colocam o sonho coletivo em funcionamento, latentes de germinação e de floração.  Nascem em abundancia, onde quer que exista um punhado de terra. Onde o banco de semente está bem formado, ela passa a ser predominante, sendo a planta de maior preferência pelas vacas e cabras. Ele recomenda nunca colocar os animais antes dela soltarem a sementes no chão e sempre uma carga animal adequada. Com isso o banco de semente não sofre redução.

Estratégia agroecológica número três: Monitorar ou examinar sempre a fartura, a fecundidade dos bancos de Sementes no Solo.

Por ultimo, o Sr. Tiné, recomenda sempre estar alerta, verificando, examinando, se o banco de Semente continua lá, nas áreas de pastejo, fecundo e forte, para a vida e para a concepção do bem viver prosseguir nesse processo admirável, de dança de adaptação climática. Nesse sentido, para verificar a saúde dos bancos de Semente na sua propriedade, ele usa dois indicadores agroecológicos, a saber:

O primeiro é a Galinha Guiné: Ele destaca que é um excelente indicador para verificar a robustez do banco de Semente. Ele explica que coloca as galinhas Guiné para pastorear em toda a área, acompanhando a sua movimentação de uma área para outra. Quando as mesmas são abatidas, ele verifica a moela. Se esta estiver cheia de Semente de Erva-de-Ovelha, indica que a área possui um robusto banco de Sementes. Assim, é uma garantia de continuar produzindo Leite.

O segundo indicador é o próprio Solo: Ele explica que colhe uma mão ou um punhado de Solo dos primeiros centímetros. Em seguida quantifica o número de Sementes presentes. Se ele encontra acima de 100 Sementes, indica que nessa área a presença de Erva-de-Ovelha, está em equilíbrio harmonioso. Finalmente, ele destaca a última dica: A Erva-de-Ovelha, da preferencia a Solos “Ariusos ou Ariscos” ou Solos conhecidos tecnicamente, como Solos de Textura Arenosa.

 

Fechar-Abrindo: Umas Dicas de pesquisa contextualizada.

  • Que processos microbiológicos e bioquímicos tem permitido a adaptação da Erva-de-Leite nestas áreas consideradas desertificadas?

  • Que processo de Pesquisa Popular Participativa podemos desenvolver para compreender melhor as razões e sentimentos do, por que e para que, algumas famílias fazem as coisas de uma forma e outras de outra maneira?

  • Como podemos Co-construir conhecimento útil, transformador, onde o saber acadêmico e popular formem simbioses de amor, como a Simbiose do Sr. Tiné com a Erva-de-Leite?

Sobre a Erva-de-Ovelha: Uma planta herbácea que na matriz acadêmica é conhecida como Stilozante humilis. Outros nomes populares que se dão esta planta herbácea no Semiárido brasileiro são: Coentro-de-Boi, Erva-de-Leite e Alecrim. 

Fonte: O Colibri